quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pouco antes do meio-dia de uma sexta-feira (29 de Agosto de 2011)

Deixo o vento levar as cinzas que estão
a cair do meu cigarro

E enquanto o torpor toma meu corpo, apago
de minha história a lembrança do seu beijo

Do mesmo modo como se apaga
essa última brasa no cinzeiro

É preciso um fim,
para que haja um recomeço...

Fim

Já não me importo com o fim
Ele não há de ser mais amargo,
do que o sangue que se vai de meus labios

Abandonando meu corpo,
pelos portões recém inaugurados em meus pulsos ,
pela vazão desenfreada da alma

Que de tanto ser torturada,
pela frieza do mundo,
perdeu a cor, fugiu do brilho, tornou-se em vão.

Suspeitas do amor?

Se veneno tem prazo de validade,
Por que o que corre em minhas veias não para de fazer efeito?

Nem o antidoto do tempo me cura,
Quais eram os planos?

O esquecimento faz parte dos efeitos deste inseticida,
que sempre ataca diretamente o formigueiro açucarado que nomearam coração.

Parafrasear

E é quando perco a paciência que reencontro a saudade,
escancarando os velhos álbuns em fotos de cores saturadas de vermelho,
outras em branco e preto, como se fossem um soneto,
posso ouvir os sons do lugar, que outrora chamei de lar.

Assim me dói só de relembrar, que entre as cores fixadas no papel de foto,
resta desbotada uma fonte de memórias que o tempo não pôde apagar,
lembro de quando as pernas corriam oito quadras sem descansar,
como era bom brincar de pique-esconde.

Lembro dos rústicos carrinhos de rolimã, o freio eram os dedos, as cicatrizes, os troféus,
tudo girava tão mais colorido, igual aos peões de madeira, ou o reflexo das bolinhas de gude,
toda tarde era ensolarada,
se lá fora chovia, dentro de um pote de doces o sol resurgia.

Mas hoje tanto faz, sol ou chuva, tudo é coberto, não preciso me preocupar,
aí então que de vez em quando perco a paciência e reencontro a saudade,
e sem deixar perceber, perco a saudade e reencontro a paciência,
voltando ao ser cinza, no cotidiano das cores em decadência.

Febre Primaveril

Vamos para um descampado francês, onde o sol grita o vermelho, o chão chora o dourado e as aves se pintam em preto.
Te deitaria na grama dourada e te amaria com o desespero da alma condenada, com o céu derretendo-se em fogo e o corpo se ardendo em brasa.
Cada ave que passava entoava um trecho de Vivaldi, a primavera, o verão, o inverno, o outono, tudo eterno, nobres aves de terno, nadam sob um céu de fogo, mergulham em frondosos montes verdes, somem no horizonte, reaparecem de repente.
Cada beijo doce é... Cada toque arrepiante se faz, a cada inspiração só se expira calmaria.
E cada colher que vem, um líquido amargo traz, recobro a sanidade, a grama dourada tornada em lençóis brancos, o sol vermelho sangue é uma lâmpada amarelada, as aves negras estão pintadas, paradas, coladas, no teto o céu não é tão infindo, mas ao menos o doce som de Vivaldi continuo ouvindo...